domingo, 27 de janeiro de 2013

Sobre a depressão

Lá nos meus 16 anos eu fui diagnosticada com depressão. Ao invés de ir pra baladinha com as amigas, eu estava num consultório de psiquiatria recebendo receitas de remédios controlados. Eu não sei de quem é a culpa de eu ter isso, mas se eu soubesse, posso jurar que iria atrás tirar algumas satisfações: porque eu? Sério, porque? Eu tenho cara de quem curte uma fossa?
Ainda lembro da vergonha que eu senti quando ouvi a notícia. Não só lembro como ainda a sinto. Parece que estamparam na minha testa "DEPRESSÃO", e de repente, todos os olhares se voltavam para mim e todo mundo ficava com pena de mim. Eu nunca falei disso com ninguém, além dos médicos, nunca tive coragem. Nesses 5 anos, é a primeira vez que falo exclusivamente sobre isso.

"Aaaah, deixa de ser fresca! Tu não tá doente porra nenhuma!" Quem me dera! Eu mesmo achava isso, até perceber que eu não sorria mais, que eu só ficava de cara fechada...se eu tivesse 80 anos, até daria pra entender. Mas eu tinha 15-quase-16. E ter que tomar um remédio que uma pessoa normal não pode comprar me assustava ainda mais. Ainda assusta, principalmente a ideia de que dependo de um comprimido pra ficar bem. 
Ah sim, os comprimidos. É uma coisa meio estranha. Você está na merda, pega um copo d'água, um comprimido, bota ele na boca, bebe a água, e meia hora depois você se sente mais leve. Assim. Da cara fechada, sai um sorriso, dá vontade de falar... mágica. Agora, sem eles, é complicado. 
O sono não vem, você fica acordado a noite inteira pensando na merda que a vida é.
Pequenas coisas irritáveis viram grandes coisas, como alguém que mastiga de boca aberta ou alguém que fala demais no ônibus.
Do nada, uma fúria te invade; falando assim parece algo de Titã, mas não, é uma raiva muito grande, quase não dá pra segurar, e essa é a parte assustadora. Parece que tem algo tentando sair de você, mesmo tentando segurar, esse "algo" continua tentando sair, e uma hora acaba saindo da pior forma possível. Tem gente que compõe, pinta, esculpe... eu grito, sejá lá com quem for.
E a tristeza, essa é a minha companheira de sempre. Parece uma fixação com as coisas que deram errado na minha vida. A cara fechada, a vontade de não rir pra nada e a constante vontade de chorar acompanham isso. A vaidade passa, nem vontade de pintar as unhas eu tenho, fico dias sem pentear o cabelo, me visto com qualquer coisa ou evito sair de casa pra não ter que vestir nada. Todas as dúvidas existenciais se intensificam: estou gorda e não consigo emagrecer, não sei o que fazer da vida, não sei se me formo no ano certo... Só dá vontade de ficar em casa, dormindo, ou vendo tv, ou ficar fazendo carinho no Nick e no Chico. Fico pensando na merda que é viver e como acabar com isso. 
E chegamos na solução do problema: a morte. Eu já cansei de imaginar métodos pra dar um fim nisso sem que doa muito. Quando eu vejo pessoas se jogando da Uerj, fico me imaginando o que elas tem de diferente de mim. Eu me tratei, eu tive quem me ajudasse, só parei porque o tempo realmente é pouco, mas eu tive contato com as "pílulas da felicidade". Aqueles pobres corpos talvez não tiveram a mesma oportunidade que eu. Mas as pílulas acabaram e eu estou ficando igual a eles. Eu sinto um pouco de inveja, afinal, eles encontraram a paz. Parece uma solução rápida, sabe? O salto final, o salto da paz. Mas eu não tenho coragem. Não sei se é esperança de algo melhorar ou pura covardia mesmo. 
Mas eu não sei se eu encontraria uma resposta assim, ou se seria o fim. Confesso que seria melhor acordar e ver que não sinto nada disso. 

Porque eu resolvi falar disso?
No meio das minhas crises, eu percebi o quanto eu já perdi com isso. Namoro que acabou no meio da crise da depressão, gente que eu afastei pra não verem minha doença, lugares que eu não fui porque eu tinha um "peso" dentro de mim... E tudo isso eu quero ter de volta, ou simplesmente ter, mas não dá. Ultimamente, minha vida tem girado em torno disso, de algo que não depende só de mim. Já procurei outros médicos, religião... nada mais faz sentido, nem minha vida. Acordo já sabendo que vai ser um dia que vou perder alguma coisa. Seja uma oportunidade, ou um amigo em potencial. Não me sinto mais eu, me sinto... alguém.
Não sei se esse texto todo vai ter uma conclusão, só queria tirar de mim um pouco da dor que isso me traz (nem revisei o texto, já peço desculpas pelos erros). 
Na verdade, eu queria uma ajuda. Além das pílulas, além do fim, além de tudo o que já tentei. Não sei se vou conseguir. 
Sendo bem sincera, não desabafei o bastante, queria citar nomes, datas, motivos, gritar, porque eu sei onde está a minha cura, mas não sei se "ela" sabe o quanto eu preciso dela.

Acho que é isso.